Cardeais refletem sobre encíclica de Leão XIV publicada nesta segunda
- 25/05/2026
Cardeais Parolin, Czerny e Fernández participaram da apresentação da encíclica Magnifica humanitas na Sala do Sínodo, no Vaticano
Da Redação, com Vatican News

Na Sala do Sínodo, Papa e cardeais durante apresentação da nova encíclica /Foto: Reprodução Vatican Media
Três cardeais participaram, nesta segunda-feira, 25, na Sala do Sínodo, da apresentação e reflexão sobre a primeira encíclica do Papa Leão XIV, publicada neste mesmo dia. O secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, frisou que o documento não trata especificamente da inteligência artificial, mas analisa o que a IA representa para a humanidade e para o mundo em um tempo marcado por transformações rápidas, profundas e repletas de responsabilidades.
O purpurado estava entre os três cardeais oradores da apresentação, juntamente com os cardeais Michael Czerny e Victor Manuel Fernández. Também participaram professores universitários, especialistas da área e o próprio Papa Leão XIV, que encerrou a manhã com um discurso no qual explicou a gênese e a missão do novo documento magisterial.
Diálogo
Cardeal Parolin moderou as intervenções na Sala do Sínodo e abriu o encontro com uma ampla reflexão sobre a “transição digital”, que, “como um prisma”, refrata diversas questões presentes na vida contemporânea: “A dignidade da pessoa, o trabalho, a liberdade, a qualidade dos laços sociais, a paz, a justiça e a responsabilidade para com a nossa casa comum”.
O secretário de Estado situou a Magnifica humanitas no contexto vivo da Doutrina Social da Igreja. Há 135 anos, a encíclica Rerum novarum reconhecia, segundo ele, que as transformações industriais de seu tempo representavam uma questão profundamente humana e social. Hoje, diante do poder das tecnologias digitais, o purpurado frisou que a Igreja é novamente chamada a discernir as “res novae da história” e oferecer “uma contribuição para o bem de toda a família humana”.
Segundo Parolin, um dos principais aspectos novos do cenário atual é a possibilidade de diálogo. Na época de Leão XIII, “nem sempre era possível para a Igreja dialogar diretamente com os principais atores políticos, econômicos e industriais que orientavam a transformação social”, constatou. Atualmente, porém, ele afirmou que esse diálogo já está em curso, envolvendo instituições, governos, universidades, empresas e centros de pesquisa.
A Igreja, afirmou o cardeal, participa desse processo “com confiança e liberdade”, convicta de que “a escuta dos interlocutores” torna mais eficaz a evangelização, o discernimento comum e a defesa da dignidade humana.
Dignidade humana
Nesse contexto, a Igreja oferece ao debate o patrimônio sapiencial confiado a ela à luz da Revelação de Cristo: “a compreensão da pessoa humana, da sua dignidade, da sua liberdade e da sua vocação relacional à imagem de Deus”, disse o secretário de estado do Vaticano.
Cardeal Parolin também citou palavras do teólogo Romano Guardini: “O crescimento do poder humano exige uma correspondente maturidade em governá-lo”. Em seguida, alertou que “a velocidade com que esse poder se acumula corre o risco de superar a capacidade das instituições — e até mesmo da consciência individual — de orientá-lo”.
Essa assimetria entre poder técnico e sabedoria moral seria, segundo o cardeal, um dos desafios mais profundos apresentados pela Magnifica humanitas. O critério proposto pela encíclica é exigente: “Na era da Inteligência Artificial, salvaguardar a dignidade humana significa estar vigilante contra novas formas de desumanização e permanecer fiel à grandeza da humanidade”. Para Parolin, a técnica não pode ser medida apenas pela sua eficácia ou pela rapidez dos seus resultados; ela deve ser reconduzida à verdade da pessoa, à justiça da vida em comum e ao bem de todos os povos da Terra.
Engenhosidade, consciência e cuidado
O Cardeal Czerny concentrou sua reflexão em três palavras-chave: engenhosidade, consciência e cuidado. Engenhosidade, explicou, porque a IA é uma das grandes conquistas da engenhosidade humana, motivo pelo qual toda a humanidade pode se orgulhar do que cientistas e pesquisadores conseguiram alcançar.
Ao mesmo tempo em que expressou “gratidão” pela inteligência artificial, Czerny também pediu discernimento diante das rápidas mudanças tecnológicas. A IA, afirmou o purpurado, “é um canteiro de obras”: pode contribuir para uma coexistência mais justa, favorecer o cuidado com a casa comum e servir ao desenvolvimento dos povos, mas também pode concentrar o poder, exacerbar as desigualdades e deixar para trás aqueles que já estão à margem.
Segundo o cardeal, o rumo dessas transformações depende das escolhas da humanidade e da capacidade de gerir a inovação. Nesse sentido, destacou a importância da consciência, definida pelo Concílio Vaticano II como “a parte mais íntima da pessoa, na qual o ser humano é tocado pela voz de Deus, reconhece o bem e escuta o chamado da verdade”.
O terceiro ponto abordado por Czerny foi o “cuidado”, especialmente em relação à casa comum, frequentemente impactada pelo avanço tecnológico. Para ele, a Magnifica humanitas está em profunda continuidade com as encíclicas Laudato si’ e Laudate Deum, nas quais Papa Francisco ensinou que o poder técnico, quando separado da sabedoria e das relações humanas, pode transformar-se em domínio sobre a humanidade e a criação.
Educação
Czerny também destacou a urgência da educação na era digital. Segundo ele, é necessário formar pessoas capazes de utilizar ferramentas poderosas sem perder a liberdade interior, o discernimento crítico e a capacidade de viver relações humanas autênticas.
Bondade, luta e beleza
Por sua vez, o cardeal Fernández relacionou a Magnifica humanitas ao contexto de uma humanidade marcada por guerras “injustificáveis”, novas formas de escravidão, cinismo e crueldade. Segundo ele, o Papa dialoga com essa humanidade ferida, convidando-a a reconhecer tanto sua “terrível capacidade para o mal” quanto a “fagulha” de bem e beleza presente em cada pessoa.
Fernández ressaltou ainda as diversas referências culturais presentes na encíclica, como a Nona Sinfonia, a obra Guernica e o filme A Lista de Schindler. O texto também menciona instituições como a Cruz Vermelha e a Organização das Nações Unidas, além de movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos, com destaque para o testemunho de Martin Luther King Jr., e o fim do apartheid conduzido por Nelson Mandela por meio do perdão e da fraternidade.
Entre os exemplos de bem citados pelo Papa e recordados por Fernández estão Madre Teresa de Calcutá, Dorothy Day, Marie Curie, Benazir Bhutto e mártires da fraternidade e da justiça, como Maximiliano Kolbe, Óscar Romero, Enrique Angelelli e François-Xavier Nguyễn Văn Thuận.
Segundo Fernández, esse entrelaçamento de “bondade, luta e beleza” ajuda a compreender que “a humanidade — magnífica e ferida — não deve ser substituída nem superada”, especialmente diante de propostas pós-humanistas e transhumanistas que depositam na tecnologia a promessa de um “paraíso” artificial.
Valor da experiência do limite
O cardeal advertiu que os recursos tecnológicos podem proporcionar uma satisfação inicial, mas não preenchem o vazio humano mais profundo. Para ele, existe o risco de um “falso misticismo”, no qual a fé é substituída pela confiança irrestrita na tecnologia, a esperança se reduz à expectativa de novos produtos e o amor é esquecido em favor do apego às coisas.
Diante dessas propostas, a encíclica reafirma o valor da experiência do limite. Fernández enfatizou que o limite “nem sempre é um defeito a ser corrigido”, pois é justamente na fragilidade humana que surgem a compaixão, a solidariedade e a generosidade.
Nesse contexto, retomou palavras do Papa Francisco: “Tornamo-nos plenamente humanos quando somos mais do que humanos, quando permitimos que Deus nos conduza para além de nós mesmos, para alcançarmos nosso verdadeiro ser”. Fernández citou ainda Francisco de Assis como exemplo de humanidade transformada pela graça, capaz de realizar muito mais do que algoritmos ou tecnologias poderiam produzir.
Discernimento
Na conclusão do encontro, Parolin afirmou que a Magnifica humanitas convida a humanidade a “olhar para a tecnologia com confiança e discernimento”, mas também com vigilância, para que a grandeza do ser humano nunca seja diminuída e para que a liberdade de utilizar ferramentas poderosas sem ser dominado por elas jamais se perca.
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